A PROPÓSITO DO BRASILEIRÃO DE 2019
MAURICIO MURAD, SOCIÓLOGO
Fundador e coordenador do Núcleo de Sociologia
do Futebol da UERJ, em 2009, centro de estudos
pioneiro nas universidades brasileiras.
O futebol no Brasil (em outros países também) é bem mais do que uma modalidade esportiva, é uma profunda representação de nossa sociedade, de nossa história, de suas contradições e de seus dilemas. A história social do futebol brasileiro é um capítulo – importante capítulo – de nossa história geral, política, econômica, cultural. Por isso, o futebol entre nós é um grande e expressivo fenômeno a ser estudado, pesquisado, refletido, para que seja entendido em toda a sua grandeza e relevância, como parcela de nossa cultura das multidões. O futebol, como disse com sabedoria Nelson Rodrigues, tem uma dramaticidade shakespeariana. E poderíamos completar, que toda o drama, a comédia ou a tragédia futebolística, só têm essa envergadura simbólica, por causa do torcedor.
O torcedor é o maior patrimônio de um clube de futebol, de um time. É ele que faz a grandeza popular desse evento cultural, que juntamente com a música são duas de nossas identidades coletivas mais marcantes e reveladoras do que é o Brasil, bem como do que é o brasileiro. Uma equipe só é grande, devido a grandeza de sua torcida, não das organizadas, que sem dúvida são importantes, mas de todo o universo de seus torcedores, organizados ou “desorganizados”, anônimos, atores invisíveis de um grandioso espetáculo, estímulo, alimento, paixão. Há desmandos, sim, violências e intolerâncias também. No entanto, todas as pesquisas sérias afirmam que essas transgressões são obras de minorias, minorias muitas vezes preocupantes e que têm que ser contidas, mas ainda assim minorias. As grandes massas de torcedores são coletivos musicais, coreográficos, alegóricos, carnavalizados, pacíficos.
O Flamengo é a maior torcida do Brasil, uma torcida vibrante, presente, seu “12º jogador”. O Campeonato Brasileiro de 2019, como de igual modo, a Libertadores, é uma prova indiscutível, do que acabamos de afirmar. São coletivos de torcedores que alcançam todas as classes de renda, de escolaridade, de perspectivas e que, sem dúvida, guardarão pra sempre em sua memória coletiva, cabeça, coração e alma, o ano futebolístico rubro-negro de 2019. E com toda razão! Recorde de público e vibração e não somente no Maracanã e num ano em que o Flamengo “sobrou”, jogando um futebol espetacular levado a campo por um elenco igualmente espetacular. Um ano de ouro.
Por outro lado, um de seus maiores rivais, o Vasco, vive há alguns anos um sufoco danado, como se diz nos estádios, sem dinheiro, sem elenco, sem resultados. Anos sombrios, que fazem sofrer e por vezes fazem infeliz, “sua imensa torcida bem feliz”, como está consagrado na letra do hino, composto (como todos os outros do Rio), por Lamartine Babo. E não é que nesse cenário de aflição, o clube resolveu fazer duas campanhas e contra quase todas as previsões foi amplamente vitorioso nas duas: quase 200 mil sócio-torcedores, um recorde, passando até o Flamengo, numa avalanche de adesões e quase 70 mil pessoas no Maracanã, no último jogo do campeonato.
Duas realidades futebolísticas bastante diferentes, mas muito diferentes mesmo, e que conseguiram se igualar simbolicamente, ou seja, no abraço coletivo, afetuoso, apaixonado do torcedor. Flamengo e Vasco comprovaram cada um a seu jeito e modo, o que a história e a cultura de ambos provam desde sempre: o maior e mais fundamental patrimônio do futebol é de fato o torcedor. Não por acaso, o jogo mais vibrante do Brasileiro foi o 4 a 4, Flamengo e Vasco. Eu lá estava, foi mesmo sensacional! Futebol é mercado, sim, é investimento, é economia, mas antes de tudo foi e é cultura e cultura popular. É bom pensar nisso. O futebol merece, a população brasileira exige.




























