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Nem mesmo os 79 anos diminuem o brilho do olhar ou a animação quando o assunto é cinefotojornalismo. Sempre apaixonado pela profissão, Chucho Narvaes pode dizer que fez história. Foi ele quem montou a primeira equipe de repórteres cinematográficos da TV Globo, em 1965, e um de seus filhos seguiu-lhe os passos profissionais — o outro é engenheiro. Foi o ganhador do primeiro Gato de Ouro, antiga premiação equivalente ao Oscar da televisão, como o melhor repórter da Globo, pelo conjunto da obra. O prêmio foi entregue em 1968 em meio a grande pompa pelo jornalista João Saldanha e pela atriz Ilka Soares. E marcou época como diretor-geral do programa Amaral Neto, o Repórter, a primeira atração a cor da TV Globo e pioneiro na utilização de equipamento com som ótico (grava imagem e som). Nascido Jesus Narvaes Soares, no México, chegou ao Brasil em 1948 como técnico de som de uma equipe norte-americana de produção de documentários. A filmagem fracassou mas ele resolveu ficar por aqui. Um amigo da Columbia Pictures que conhecia seu trabalho lhe arrumou um emprego na Atlândida. Dois anos depois, já estava naturalizado brasileiro. Experiente em cinema, inclusive com curso nos EUA, ocupou uma série de funções, de técnico de som a assistente de direção, em filmes dirigidos por Carlos Manga, entre eles Aviso aos Navegantes e Sansão e Dalila, sucessos da época das chanchadas. Quando o cinema nacional entrou em declínio, Mauro Salles, o primeiro diretor de jornalismo da TV Globo, o levou, em 1965, para a jovem emissora. Por sua experiência, sua missão era formar uma grande equipe de cinegrafistas para trabalhar na TV. A transformação para repórter cinematográfico não foi fácil, conta Chucho, como é internacionalmente conhecido no circuito da imagem. Em comum, a arte de trabalhar em película, na época ainda em p/b. “Era um trabalho muito laborioso porque não existiam as facilidades de hoje. As bitolas dos filmes eram diferentes — 16mm em tv e 35mm em cinema — e tínhamos que nos virar para fazer a pauta porque primeiro filmávamos a matéria, depois é que o redator escrevia o texto. E eu fui bem sucedido em minha tarefa, tanto de formação da equipe quanto nas filmagens”. Chucho conta que teve grandes oportunidades. Com o jornalista Eli Moreira, fez famosa reportagem com Che Guevara. Ele conseguiu entrar na guerrilha e filmar tudo— para transitar e filmar na selva levaram uma carta de recomendação do então ministro da Guerra , Costa e Silva, ao governo boliviano. Com Ibrahim Sued, uma série de entrevistas com os presidentes. Com Hilton Gomes, fez o enterro do ex-presidente norte-americano John Kennedy, que acabou sendo um furo de reportagem no Brasil. Falando fluentemente além do português e do espanhol, francês e inglês percorreu filmando o trajeto de Kennedy até seu assassinato em Dallas. Depois, foram para o velório, em Nova Iorque, e numa corrida contra o tempo para o enterro, em Washington. No cemitério de Arlington, no meio da multidão, ele tentava o melhor ângulo de filmagem, perto de uma plataforma onde estava a imprensa local. Do alto, um agente do FBI o reconhece de outras matérias, bate no seu ombro e o indaga sobre sua incumbência no local. Quando Chucho lhe explica, é “subido” e passa a filmar e a contar para Hilton Gomes, embaixo, o que se passava. Foi assim que o repórter gravou a narração para o Brasil da cerimônia fúnebre de Kennedy. Rápido, voaram de novo para NI para entregar as fitas na Varig, incumbida de trazê-las ao Brasil para as mãos da então editora Alice Maria — este era o método usado antigamente. Mas essas e outras reportagens históricas foram destruídas no primeiro incêndio ocorrido na TV Globo, lamenta Chucho. Mais tarde, com Walter Clark à frente da emissora, trouxeram Amaral Neto da TV Tupi para a Globo e nasceu o programa. Na montagem da equipe, Narvaes propôs ser o comandante do “Amaral Neto, o Repórter,” o que foi aceito. Discutiam a pauta, e Chucho traçava o roteiro, além de filmar. A equipe era grande e muito ágil porque não havia ainda transmissão via satélite. A fórmula era gravar três programas por pauta e mandar para o Rio, pelos pilotos da Varig. Ele mesmo montava os programas e passava tudo para o videoteipe (locução, sonorização etc). Só para se ter uma idéia da engrenagem, a pauta sobre Portugal rendeu 20 programas. Cada um deles consumia de 30 a 40 rolos de filme, com duração cada um de três minutos de filmagem. As imagens eram captadas por uma BH manual, utilizando-se três lentes (10,25 e 75mm), depois por uma Reflex alemã, com zoom, e rolo de filme já com duração de 10 minutos e som ótico, isso na década de 70. Muitas vezes Narvaes voltava para a montagem na emissora e depois retornava à matéria. Correram o Brasil do Oiapoque ao Chuí, passando pelos parques nacionais, pontos cardiais e monumentos históricos, e rodaram o mundo durante 12 anos, mostrando a cultura, os costumes, tradição e folclore dos lugares. Faziam parte da equipe os cinegrafistas Cesário Pinto, Humberto Borges, Valdemir Moura, Carlos Tourinho, Hélio Martins, Demerval Azeredo, Milton Correa, Sérgio Albuquerque e José Roberto Couto, além do redator Severino Carneiro Junior. “Se esqueci de alguém peço desculpas, minha memória já falha” , diz Chucho Narvaes. O objetivo do programa era mostrar que o Brasil se tornava “ermergente” . “Na época, o País se destacava no comércio exterior pela exportação de minério e café. E tivemos sucesso na fórmula do programa porque fomos apoiados pelo Exército, Marinha e Aeronáutica. Fizemos grandes contatos com políticos ao redor do mundo e diversos programas enfocaram países parceiros comerciais do Brasil, mostrando que nosso País tinha pé no contexto mundial. Era o maior orgulho dizer que aquela equipe era brasileira . O programa foi uma realização profissional que poucos tiveram a oportunidade de ter”. O Amaral Neto, o Repórter tinha uma hora de duração e era exibido em horário nobre, inicialmente aos domingos e depois aos sábados — as implicações políticas é que determinavam a importância dos programas. O preferido de Narvaes, por sua beleza, foi o programa que mostrou um fenômeno da Pororoca, o encontro da água do mar com a do Rio Iriri, no Pará. “Procuramos este encontro no mundo todo e fomos encontrá-lo aqui. Para filmá-lo em Macapá tivemos apoio da Aeronáutica. Ficou tão bom que os japoneses logo que viram compraram a reportagem”— nessa época não se registrava direitos autorais. Quando saiu da Globo foi ser diretor do Centro de Cinema e Televisão da Petrobrás, responsável pela divulgação comercial da BR. “ A Petrobrás fundou a Interbrás para vender seus produtos no exterior e os programas eram o elo de ligação entre o cliente e a Petrobrás. Participaram das peças publicitárias, por exemplo, Pelé, o Vasco da Gama e o Fluminense, e muitas vezes pegávamos programas da Globo e os editávamos junto com o institucional, para fazer propaganda da Interbrás. Depois de 10 anos nisso, se aposentou e passou a frilar. Hoje dá consultoria e assessora a empresa do filho, Marco Antônio Narvaes, editor e cinegrafista. Histórias é que não faltam na memória profissional de Chucho. Mas de “diferente”, ele recorda de uma expedição do programa no Amazonas para registrar o primeiro contato entre os índios atro-Aris, ainda selvagens, e o padre Caliere. O catequista foi na frente e cismou de levar uma cozinheira, mesmo sabendo que a tribo tinha mania de roubar mulheres. A equipe chegou de helicóptero, do Parasar, e custou a localizar a aldeia. Não conseguiam descer porque os índios colocaram árvores para impedir o pouso. Desceram então no acampamento, encontraram os restos mortais do padre e nem sinal da cozinheira. “Se ela foi morta ou não ninguém soube”, conta Narvaes.
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